A lua está sangrando agora. Primeira parte.

A lua está sangrando agora. Primeira parte.

Uma história escrita em setembro de 2015. Baseado em fatos reais e algumas mentiras. Em um tempo de aglomeração, mas também de distanciamento social, durante o eclipse total e a lua de sangue.

Telhado.

Fernanda e Raphael sobem uma escada de ferro. Fernanda reclama da segurança e do ferrugem daquela escada.

Qual o seu problema para subir até aqui em cima dessas telhas velhas sendo que esse terraço já é alto?

Raphael apontando para o ponto mais alto da avenida principal.

O céu não é tão limpo dai de baixo, na verdade, ele é, mas não parece que é, e da-daqui dá para ter uma boa perspectiva da parte de baixo de onde moramos, nosso bairro é a escória descida barranco abaixo, a perspectiva é ótima!

Arruma o óculos e finge que o que acabou de ouvir entrou por um ouvido e saiu pelo outro.

Besteira. Sabe de uma coisa, não é tão simples e eu estou sentindo muito com isso. As coisas estão mais palpáveis pelas manhãs, ou no caminho para algum lugar, e na verdade não sei porque estou tocando no assunto, não dá para falar assim tão facilmente.

Coloca as mãos sobre os ombros prestando atenção no desamparo daquele desabafo.

Tudo bem amiga. Você é ruim demais para essas coisas, mas se liga nesse momento… quem vai estar vivo na próxima lua de sangue? Será que eu vou ficar igual o velho que mora na frente da casa do Juninho? Que as pessoas se perguntam o tempo todo quando vai morrer. Ou você, vai ficar igual a minha tia-avó Dada, imagina como essas coisas são engraçadas de pensar nesse momento. Nós com saúde para subir até aqui, e se equilibrar, calcular o peso dos passos para não quebrar nenhuma telha. Não haverá mais dessa precisão num intervalo de um eclipse, talvez haja no nosso espírito, e só.

Semblante calmo, traga o cigarro, ainda assim desvia o olhar.

Talvez a gente só consiga ver o vermelho dela daqui dezessete anos, porque olha essas nuvens carregadas… De qualquer forma, sinto que fiz a coisa certa.

Em seguida repousa a câmera digital na cintura e com a outra mão mexe no seu celular de teclado.

Você só aceitou vir para se livrar das coisas de contabilidade que estava estudando, cínica. Consegui conectar no wi-fi daqui de cima. Tenta ai no seu.

Apaga o cigarro na sujeira acumulada entre telhas úmidas. Absorta no brilho alto do celular.

Quer vir ver a lua de sangue em cima das telhas daqui de casa? Ainda dá tempo.

Raphael se agacha, sem calcular os passos, demostra alguma familiaridade com o território. Enquanto aguarda os dois vistos do whatsapp ficarem azuis. Mensagem visualizada às nove e quarenta e cinco.

É frustrante visualizar situações que não tem coragem de viver, inusitado acreditar que só quem tem coragem perante a sociedade é aquele que acorda cedo para sofrer. Enquanto o artista que ganha pouco é sempre visto como um preguiçoso. A coragem de presentear um paulistano que passa cego pela ganância, o torna quase invisível perante a importância, que trocada pela arrogância, tornasse um ser repugnado pelo engravatado que logo se vê superior por ser bem formado, no entanto mal sabe que o melhor aprendizado está na arte de saber ser ignorado “o caos só é divino para quem consegue senti-lo já despejado no chão’’. Estou escrevendo aqui e com preguiça de ir até aí, fica pra próxima.

Permanece imóvel tentando acompanhar o ritmo daquele paragrafo, sorrindo ao passo que lê em voz alta.

A Jaque não consegue simplesmente dizer que não vem, não é? Essa menina é mais perturbada que você. Acho que está começando a chuviscar.

Os dois olham para cima em busca de alguma mancha vermelha de sangue no céu carregado. Esperando em silêncio a chuva apertar.

É… nada mesmo, fica para uma próxima. Daqui dezessete anos.

Demorou a perceber que estava sozinho lá em cima.

Todos já viram a maquiagem borrada na cara das bonecas.

Sentava-se no baú camuflado ao pé da cama em quase todas as minhas visitas naquela época. Como se protegesse um segredo das vistas dos adultos, eu sabia que ali guardava também os poucos presentes que eu havia lhe dado. Livros de bolso, O Retrato de Dorian Gray, alguma poesia de Alberto Caeiro, na esperança de seduzir os seus olhos num escape fortuito no futuro. No entanto, os quadrinhos eram para ser lembrado como um irmão querido. Havia perdido algum pedaço do seu crescimento, quando dei-me por mim, já tinha longos cabelos negros de cachos volumosos. Aliás, o próximo presente seria um vestido.

Sempre teve o trato com a escrita, a mesma tela de celular com que me ignorava ao dar qualquer conselho, era com a qual conseguia expressar-se através de fanfics. Deixava as gavetas abertas e suas bonecas montadas pareciam ter se divertido na noite, com a maquiagem borrada, os vestidos improvisados de retalhos, embora os cabelos fossem bem penteados. Eram estranhamente bonitas e de uma graça animal. Semelhantemente, tinham as costas magras, seus fios transando anzóis ondeados pelas suas pontas.

Eventualmente, naquele quarto entrava um garoto de sardas, de olhar apartado. Decerto, não tinha mais o riso de uma criança que se fantasiava das coisas que assistia, e seguia o roteiro das brincadeiras dadas – trilhava o próprio caminho. O contraponto daquele quarto, a rua. Procurava algo nos cantos das gavetas da cômoda compartilhada, sempre nas beiradas. Ignorava as bonecas com meio corpo para fora. No jogo de três olhares, entende-se que, existira uma criança extremamente eufórica e em constante alegria por dentro. Mas que agora adormecera, numa manhã de neblina densa, da mesma que escolhemos perder o dia de aula, em que no murmúrio da multidão atravessando as torres elétricas para ir a escola, decidimos voltar a dormir.

Mesa de jantar.

Enquanto na mesa da cozinha, um pai almoçava sozinho depois da pinga para abrir o apetite. Sempre sem camisa e com pimenta a mesa. Com os móveis que comprou a prazo, e não tinha se acostumado ainda com o estado da casa, nem mesmo com as bonecas para fora da gavetas, sentia os dias da semana tomarem forma, a suas palavras alguns sabores. Era o regresso mais longo desde então, encarado por significados e mudanças radicais. Cada um tinha tomado uma forma diferente de humano.

Enfim, percebendo gradualmente, que dos seus frutos começavam a crescer os primeiros ramos irregulares, o arranjo que acaba sustentando a vida. Dentro de mim, algum resquício, eu fazia parte disso e ao mesmo tempo era apartado.

Continua.

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