A luz no fim das prateleiras.

A luz no fim das prateleiras.

Naquele dia que retornou mais cedo do trabalho, o garoto de boné sentiu ao entrar em casa o silêncio percorrendo todos os cantos. Havia ido embora.

O vácuo causado pelo silêncio de todas aquelas caras mudas reverberava aquela antiga fotografia de que aquilo já havia acontecido antes. Era como um demarcador de mais uma temporada naquela família.

Durante a noite, a lâmpada amarela da sala balançava suavemente com a pouca brisa. Entrava pela porta deixada aberta por aqueles que agora falavam baixo para os vizinhos não escutarem.

Permaneceu imóvel olhando para aquele teto sem forro por horas. Mantinha um foco atônito na lâmpada. Vez ou outra, suaves trancos na fiação eram dados e um pouco de reboco respingava em seu rosto.

Como era comum a situação, os movimentos na casa seriam outros e tudo sairia do comportamento geral.

Todos dormiriam fora do horário, telefone tocando depois da meia-noite, cheiro de café passado na madrugada.

Um choro e um suspiro irregular, vez ou outra. Aqui e ali.

Plataformas.

O barulho das pisadas dos estoquista na escada e na plataforma, era quase imperceptível comparado a música eletrônica usada na loja.

A escada em caracol aos fundos dos provadores dava acesso ao estoque e ao subir, era fácil notar um terceiro e interditado andar.

Era toda uma estrutura de tubulações de ar condicionado e uma plataforma suspensa. Além das seis altas prateleiras de mercadoria havia caixas de som nas duas extremidades.

No andar abandonado, no iluminar da lanterna do celular podia-se ver manequins manchados, milhares de cabines, coisas defeituosas e tênis sem par.

Com mais experiência, alguns vendedores usavam para comer marmita fria ou lanche rápido dos ambulantes que transitavam de loja em loja, com doces ou salgados nas sacolas.

Se alimentar era a coisa mais dispensável quando queriam aproveitar o pico de clientes.

Também era um local para se esconder do gerente, ter um papo sério, chorar pelo cansaço das horas em pé ou beijar alguém.

Expediente.

O final de semana se aproximava, sabia disso pela quantidade de mercadoria para ir buscar no estacionamento.

Na entrada do estoque, o garoto de boné já não conseguia passar entre os malotes lacrados e bagunça deixada pelos vendedores, ali também todos guardavam seus pertences e eram revistados.

Atravessou por cima de tudo apoiado no quadro de funcionários do mês, que inclusive tinha a sua foto.

Até tentou pedir ajuda para conseguir passar, mas o outro ajudante estava dormindo no seu cochilo habitual no corredor da terceira prateleira.

Durante as arrastadas tardes de fluxo e movimento baixo na loja, eram orientados estar sempre à vista. Não se apoiar em nada e sempre mostrar-se em movimento.

O barulho infernal daquela playlist imutável ajudava a perturbar o juízo.

Era estrategicamente calculado que aqueles peixinhos de aquário estivessem sempre confusos e agitados. Sem saber qual era a cara do dia, a posição do sol lá fora ou a força da brisa no rosto.

Só uma moribunda sensação de ar condicionado nivelando toda e qualquer temperatura e sentimento. Com a promessa de virarem vendedores um dia.

O jogo dos esboços.

Naquele fim de tarde, após deixar toda fileira de caixas na prateleira completamente alinhada (eles chamavam de puxada) e o chão por completo varrido (eles chamavam de grau), era o momento certo de por em prática uma ideia.

Era o primeiro dia do jogo que havia bolado consigo mesmo, o garoto de boné havia impresso folhas aleatórias de poesias baixadas em pdf. e recortadas em tirinhas para caber nos bolsos.

O jogo consistia em ler o maior número de versos e depois rabiscar num bloco de nota associações livres, até que algum vendedor filho da puta o chamasse para jogar caixas e descer mercadoria.

Corredor da terceira prateleira. Um pedaço de papelão estendido pela plataforma vazada bloqueando a visão do térreo. Um segundo ajudante dormindo. Uma nanquim descartável à mão e um bloco de rascunho apoiado demais uma caixa de tênis. Pernas aquecidas e ligeiras do subir e descer escadas. Feito.

Rabiscava roupas, skates e sentimentos abstratos com energia restante. Tudo era depositado em pinceladas rápidas quando de repente, respingos de reboco começaram a cair na folha.

Aquele fio, que ligava a noção do disfarce e o real tempo do relógio, esticava-se. E uma voz parecia vir das engrenagens.

A música nesse momento parecia agora mergulhada. Abafada. Sob sua cabeça procurava de onde partira a voz. O ajudante continuava a dormir.

A música se distanciava ainda mais e forçando o olhar novas passagens entre as tubulações surgiam, nunca reparadas antes.

Nunca notou extensão tão grande, mesmo quando precisava subir no topo das prateleiras para colocar um balde no vazamento de água do ar condicionado.

Foi assim que percebeu que dali havia acesso ao terraço daquele imenso shopping center. E que a luz discreta do fim de tarde invadia as brechas das ventilações.

Uma tosse forte com pigarro. Era certo que tenha vindo dali.

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